E as LEITURINHAS continuam numa boa…

Postado em 25 de fevereiro de 2015 por Seja o primeiro a comentar

 

Eloi ZanettiEloi Zanetti, 67 anos – Especialista em marketing, comunicação e vendas. Foi diretor de comunicação do Bamerindus e de marketing de O Boticário.

Ambientalista – um dos idealizadores da Fundação O Boticário de Proteção à Natureza, foi conselheiro da TNC – The Nature Conservancy para o Brasil e da SPVS e da ABERJE. É conselheiro da Unilivre – Universidade Livre do Meio Ambiente, criador da Escola de Criatividade e da Casa do Contador de Histórias de Curitiba. Autor de diversos livros sobre vendas, marketing, infantis e crônicas.

Contatos: eloi@eloizanetti.com.br – fones 41 30260222  41-9698-7187

Eloi Zanetti é o criador do jingle de sucesso  “O tempo passa, o tempo voa… e a poupança Bemrindus continua numa boa!”. Quem se lembra?

(Entrevista realizada por Carla Kühlewein)

LEITURINHAS – Qual a história de suas LEITURINHAS da infância até hoje?

ELOI – Quem me colocou no mundo das leituras foi uma tia da minha mãe, uma cabocla do norte do Paraná, que lia para mim e para minha irmã as histórias do Tarzan e de Julio Verne em livros antigos. Estou falando dos idos de 1952. Eu ficava maravilhado com as aventuras do Tarzan na cidade de Palandria (jamais esqueci este nome) – minha imaginação viajava enquanto ela contava as histórias. Mais tarde, aos 7 anos, já alfabetizado, meu pai me deu um álbum do Pato Donald, presente de Natal o que me iniciou de vez no mundo dos livros e das histórias. Foi um privilégio nascer em uma família de contadores de histórias. E uma das histórias que mais me marcou eras contada por minha mãe “As continhas de ouro que no rio deixei…” – recentemente, depois de 60 anos encontrei esta história (de origem africana) no livro Casa Grande e Senzala de Gilberto Freire.

 

LEITURINHAS – Você criou a original ESCOLA DE CRIATIVIDADE, como é possível ensinar a criatividade? Uma das atividades propostas no site dessa escola é a “leitura criativa”, comente um pouco sobre ela.

ELOI – Não pretendemos “ensinar” criatividade, mas sim, “estimular” a criatividade que já existe nas pessoas. Todo mundo nasce criativo, as crianças são extremamente criativas, mas ao longo das nossas vidas, a própria escola, a família e depois as empresas vão abafando nossa criatividade.

O programa de leituras criativas consiste em alguém preparar um livro, lendo-o e anotando as principais passagens e depois se reunir com um grupo de 10 a 15 pessoas e durante algumas noites lerem juntos debatendo o tema. Os últimos livros que lemos juntos foram: “A cabeça de Steve Jobs” e os “Criadores” de Paul Johnson”

 

LEITURINHAS – Você tem uma larga experiência na área de marketing como diretor e criador de grandes ideias. Quais os desafios para um profissional dessa área se manter sempre inventivo?

ELOI – Conviver sempre com gente mais jovem do que a gente. Ausência de críticas a qualquer situação, ser extremamente curioso, procurar coisas fora da nossa área, sair para o mundo, desligar-se do computador e conversar com as pessoas, onde elas estiverem, ler muito, buscar informações, pois quanto mais informações tivermos na cabeça mais conexões faremos a respeito daquilo que precisamos resolver. A leitura nos faz, com certeza, mais criativos. Criatividade é ligar uma coisa com a outra.

 

LEITURINHAS – Como é seu processo de criação na literatura infantil? Em que ele difere ou se assemelha ao de criar ideias em sua profissão?

ELOI – É mais difícil escrever livros infantis, pela responsabilidade que o autor tem com as crianças. Um livro infantil deve ter um ritmo mais acentuado, a leitura deverá ser feita, de preferência de uma só vez, para não perdermos o interesse do leitor. As idéias aparecem, são anotadas e depois trabalhadas, às vezes durante anos. A reescrita é feita de 80 a 100 vezes até que eu me dê por satisfeito com o que escrevi. O segredo é cortar palavras e frases. Também escolho o tipo de ilustração de acordo com a história – levo meses para escolher um ilustrador ao meu gosto. Trabalho com o ilustrador orientando-o e também faço a direção dos meus livros. Acompanho todo o processo. Dá muito trabalho, mas fica do jeito que eu quero.

 

LEITURINHAS – Atendimento a clientes, organização de eventos, elaboração de palestras, escrever livros, como você concilia atividades tão variadas e ao mesmo tempo, que exigem tamanha criatividade?

ELOI – Saber administrar o tempo. Foi um dos cursos mais importantes na minha vida – há uns 40 anos. Desde então, administro meu tempo com eficiência. Mesmo assim não faço tudo o que quero fazer. Escrever toma muito tempo. Levanto cedo, normalmente as 6 horas já estou escrevendo.

 

LEITURINHAS – Você criou a clássica propaganda do Bamerindus “O tempo passa, o tempo voa e a poupança Bamerindus continua numa boa”, eternizada na mente de pessoas que vivenciaram seu período de veiculação na mídia. Qual o segredo para uma ideia impregnar na mente do consumidor?

ELOI – Neste caso, além do conceito, bem estruturado (o que faz as pessoas ganharem dinheiro na poupança é o tempo em que seus investimentos ficam no banco) – houve uma boa música e muita repetição. O humor também ajudou.

 

LEITURINHAS – Guardadas as devidas proporções, essa mesma estratégia poderia ser usada no incentivo à leitura? O que é mais desafiador: vender um produto ou convencer alguém a ler?

ELOI – Convencer alguém a ter hábito de leitura é muito difícil. País devem ler para seus filhos, ainda muito pequenos, deixar livros ao alcance das crianças, conversar sobre o assunto, debater o que os filhos leram, levá-los às livrarias e bibliotecas. Tem gente que por mais incentivada que seja não vai gostar de ler mesmo.

 

LEITURINHAS – Seu fascínio pelo céu estrelado levou você a escrever o livro ESTELA, ESTRELA, ESTRELINHA MINHA (2012). Essa paixão pelas estrelas já esteve presente em alguma de suas atividades na área da comunicação em que você atua e atuou (TV, rádio, documentário)?

ELOI – Já sonhei algumas vezes que caminhava entre as estrelas, andava por mundos estelares. São os sonhos mais bonitos que alguém pode ter.

Sempre gostei de histórias ligadas as estrelas, tais como o mais antigo conto escrito (documentado) em escritas cuneiformes pelo povo hitita – 2.800 anos a.C. “A história de Kessy, o caçador” que conta como nasceu a constelação de Órion. Também gosto da história da “A estrelinha que ficou.” do escritor polonês Felix Zamenhof.  Quando  estava escrevendo este livro, fiz um boneco e mostrei-o em um almoço ao meu amigo poeta Thiago de Mello – ele leu, gostou mas disse: “tire tudo isso daqui, só deixe a poesia do texto” – eu havia colocado informações técnicas sobre as estrelas com objetivos meio didáticos.

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 LEITURINHAS – Dada sua capacidade criativa, não é difícil imaginar que escrever para crianças seja algo extremamente prazeroso pra você. Mesmo assim, quais são os desafios que você percebe na escrita desse tipo de livro?

ELOI – No meu caso, sempre escapo e acabo escrevendo livros mais para gente grande do que para crianças – são os casos de “O Nó do Afeto” e “Você sonhou que me abraçava.” Acho que tenho muito ainda que aprender. 

 

LEITURINHAS – Alguns de seus livros infantis tratam do relacionamento pessoal de maneira sensível, como é o caso de O NÓ DO AFETO e SEU VIZINHO É AQUELE QUE MORA NO SEU CORAÇÃO. Comente um pouco sobre o processo de elaboração de livros como estes.

ELOI – O Nó do Afeto nasceu de uma história que ouvi, mas nunca pude identificar a origem. Já recebi vários e-mails, cada um contando uma origem. Como não dá para provar, fica a coisa por aí. As histórias são catadas. Neste caso, fantasiei mais a história, criei detalhes. O livro “Seu vizinho…”- nasceu de uma observação sobre as funções dos dedos. É para ensinar as crianças o trabalho em equipe. Li vários livros de neurociência sobre como se processam os comandos entre nosso cérebro e os músculos dos dedos. Um livro que me ajudou muito a elaborar este conceito foi “O artífice” – que fala justamente dessas funções. O titulo é recolhido de um provérbio turco.

 

LEITURINHAS – Você foi o fundador da Casa Contador de História, em Curitiba (PR). Relate um pouco sobre essa experiência.

ELOI – Eu trabalhava no Boticário e sempre escrevia textos de estímulos às vendedoras das lojas. Percebi que precisava dominar a técnica de escrever histórias – narrativas provenientes do mundo da oralidade – descobri um curso de contadores de histórias com a Martha Cunha e o Mauro – fui fazer – era eu (homem) e mais 27 mulheres. A partir daí comecei a organizar mais a minha técnica de contar histórias e pesquisar sobre o assunto. Descobri Joseph Campbell, Walter Benjamim e os autores gregos e romanos. Tive a ideia da Casa do Contador de Histórias, apresentei-a à Martha.  Com o tempo me afastei da Casa para me dedicar às pesquisas de forma solidária. Mas sempre estou com eles. Gostaria de fazer mais coisas sobre este assunto, mas falta tempo.

Também usei a técnica da narrativa para criar e reforçar as marcas do Bamerindus e do Boticário, afinal: “pessoas não compram produtos, pessoas compram histórias.” Falo sobre isso e aplico as narrativas nas empresas há mais de 40 anos. Agora os jovens inventaram “o novo de novo” – chamam a isto de storytelling. 

 

LEITURINHAS – Que dicas estratégicas de incentivo à leitura você poderia oferecer aos pequenos e grandes leitores?

ELOI – Ter livros sempre à disposição das crianças, não importam o que sejam, podem ser gibis. Contar histórias para elas na hora de dormir.

Para os jovens sempre que posso falo da diferença que a leitura faz na carreira – o profissional pode ser um grande técnico, o melhor da sua área, mas ele só será diferente e fazer uma carreira mais sólida e consistente se carregar consigo uma bagagem cultural de respeito. É isso que vai fazer a diferença na sua carreira – o humanismo e, isto só uma longa vida de leitura pode oferecer. Falo também que se alguém começar a ler uns 12 livros por ano (o que é pouco) os resultados só virão depois de uns 5 anos – os resultados da leitura são cumulativos, mas uma vez conquistados são da pessoa para o resto da vida.

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Categoria : Entrevista
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