Inclusão nas LEITURINHAS

Postado em 4 de março de 2016 por Seja o primeiro a comentar

(por Carla Kühlewein)

CRISTIANO REFOSCO nasceu em Santa Maria-RS, é fisioterapeuta e trabalha há 13 anos com crianças com deficiência. A coleção “Era uma vez um Conto de Fadas inclusivo” é sua primeira experiência literária de autor. Apesar de não ser ilustrador, ele optou por desenhar as suas histórias e mostrar o seu olhar sobre o universo das crianças com deficiência.

 

LEITURINHAS – Como a fisioterapia pode auxiliar a  criança com deficiência, anteriormente chamada de “especial”, nas suas mais variadas limitações, como o cego ou o autista, por exemplo? 

CRISTIANO – O termo “criança especial” está em desuso, visto que fomenta o preconceito. Todas as crianças são especiais, tendo elas deficiência ou não. O termo correto é “criança com deficiência”.  Desde 2006 que se convencionou não usar mais termos como “crianças especiais” (e sim “crianças com deficiência”) e “portadores de necessidades especiais” (mas sim “pessoas com deficiência” ou “pessoas com necessidade especial”) isso porque ninguém “porta” uma deficiência, mas sim a possui.

A fisioterapia pode ajudar crianças com autismo ou cegas principalmente favorecendo a aquisição de etapas do desenvolvimento neuropsicomotor que estejam incompletas, ou ainda, estimulando aspectos sensoriais. Já tive pacientes cegos que possuíam um atraso no desenvolvimento motor em função de não enxergarem. Através do estímulo de outros sentidos (tato, audição) e da organização do esquema corporal pode-se conseguir ótimos resultados.

 

LEITURINHAS – Conte um pouco sobre a história de suas LEITURINHAS da infância até o presente momento. 

CRISTIANO – Na infância, li muito Monteiro Lobato. Pegava os livros na biblioteca da escola e me deliciava. Mais tarde, veio “meu pé de laranja lima”, de José Mauro de Vasconcellos. Série Vaga-Lume e clássicos da literatura brasileira vieram logo após.  Érico Veríssimo, Jorge Amado, Gabriel Garcia Marquez , José Saramago e Mario Vargas Llosa  são autores que procuro ler todos os anos.

 

LEITURINHAS –  A coleção ERA UMA VEZ UM CONTO DE FADAS INCLUSIVO é sua estreia na literatura infantil, como autor e ilustrador. O que muda e o que permanece para um fisioterapeuta depois de ingressar no meio literário com obras tão peculiares? Você pretende dar continuidade à carreira de escritor nessa linha temática? 

CRISTIANO – Considero que crianças não são adultos pequenos, mas sim crianças. Fazer fisioterapia nem sempre é gostoso. Por isso, sempre tive a preocupação de levar para os meus atendimentos elementos lúdicos que pudessem estimular os meus pacientes. Contar histórias, por exemplo, sempre foi um recurso que utilizei (e que utilizo) quando preciso alongar uma criança. A diferença, é que a partir de agora, não serão unicamente meus pacientes que terão acesso a essas histórias. Isso mudou. Porém, a preocupação com a qualidade do trabalho e  a necessidade de criar sempre recursos para tornar a terapia interessante para a criança permanecem.

Não sou ilustrador. Sou apenas um fisioterapeuta que optou por ilustrar os próprios livros. Sempre brinco dizendo que as ilustrações não possuem o “padrão Disney”, mas que esta foi a opção do projeto. Quando o designer Leandro Selister (que coloriu as ilustrações e organizou os livros) viu os meus desenhos, sugeriu que eles fossem usados. Foi um risco que corremos, mas felizmente as crianças foram e estão sendo muito receptivas as minhas ilustrações.

Atualmente estou trabalhando no que chamo de “próxima fase da coleção”.  Novos contos de fadas e novas histórias com enfoque nas diferenças. Escrever é um vício, não dá para parar.

 

LEITURINHAS – A coleção ERA UMA VEZ… é composta por 11 volumes de releituras dos contos de fadas, em que os personagens principais apresentam algum tipo de deficiência. Relate um pouco sobre o processo de composição dessas histórias. 

CRISTIANO – Minha primeira preocupação foi utilizar contos de fadas em que os protagonistas não fossem animais. Como queria falar sobre deficiências humanas, não vi motivos para transformar os três porquinhos em porquinhos com síndrome de Down, por exemplo, ou para fazer um Gato de Botas amputado. Num processo de pura inspiração, as deficiências foram se encaixando naturalmente nas histórias. Não houve dilema do tipo “quem vai ser cego” ou “quem vai ser paraplégico”.  Outra preocupação era que elementos consistentes dos contos de fadas originais permanecessem nos contos inclusivos, o que não quer dizer que a deficiência não altere o curso da história. Em BRANCA CEGA DE NEVE, por exemplo, a princesa cega possui um olfato muito desenvolvido e por isso sente o cheiro da madrasta quando esta vem lhe oferecer a maçã envenenada. Branca então tem a opção de comer ou não a maçã…

 

LEITURINHAS – Como surgiu a ideia de inserir a descrição das ilustrações dos livros durante a leitura oral das histórias? Você já conhecia o trabalho de adaptação descritiva de imagens para pessoas com baixa visão e cegos?

 

CRISTIANO – A acessibilidade da coleção sempre foi uma preocupação minha e da equipe que montou o projeto. De início cogitamos fazer uma versão da coleção em Braille, para que crianças e adultos com deficiência visual tivessem acesso aos livros, porém, por uma questão de custos (fazer livros no Brasil em Braille ainda é muito caro), optamos pela áudio-descrição. Por isso, a coleção é formada por 11 livros mais um CD com o áudio livro (para as crianças com ou sem deficiência que ainda não foram alfabetizadas) e com a áudio-descrição das histórias. A áudio-descrição  foi realizada pela Empresa MIL PALAVRAS. Eu nunca tinha tido acesso a materiais com áudio-descrição.  Foi muito legal entrar nesse universo, que até então não fazia parte da minha rotina profissional.

 

LEITURINHAS – Qual a receptividade dessa coleção por parte das crianças com deficiência? E por parte de crianças, jovens e sem deficiência? 

CRISTIANO – As crianças com deficiência que viram os livros adoraram.  Elas se reconhecem e se identificam com os personagens. No lançamento da coleção em Porto Alegre foi emocionante ver crianças cadeirantes querendo tirar fotos com o painel da Chapeuzinho da Cadeirinha de rodas vermelha… Já as crianças sem deficiência demonstram grande curiosidade pelos temas. Não raro, elas perguntam “mas o que é inclusão?”. Outra menina sem deficiência que estava no lançamento da coleção observou: “que bom que agora os castelos já possuem rampas para as princesas que precisarem de cadeira de rodas”… A menina fez esta observação após ler “a bela amolecida”.

 

LEITURINHAS –   O que falta para o Brasil se tornar o PAÍS DA INCLUSÃO?  

CRISTIANO – Penso que inclusão é um conceito que deve ser trabalhado desde cedo, por isso pensei na coleção como ferramenta que estimulasse nas crianças a curiosidade sobre o tema. Não tem como falar em inclusão sem falar em diferenças. Não somos todos iguais. Cada um é de um jeito e todos devem ser respeitados. Uma criança que cresce com esse conceito, terá muito mais chance de ser um adulto desprovido de preconceitos. Além disso, a inclusão exige muitas vezes uma série de modificações estruturais e materiais, principalmente quando entendemos que inclusão e acessibilidade estão fortemente ligadas. Para incluir crianças com deficiência numa sala de aula comum, por exemplo, é preciso modificar o meio. Rampas, cadeiras adaptadas, banheiros adaptados, recursos de tecnologia assistiva, qualificação dos professores e monitores são produtos de investimento que um país deve fazer na educação para oportunizar que crianças com deficiência tenham oportunidade de se desenvolver.

 

LEITURINHAS –  A partir da sua experiência como fisioterapeuta, escritor e cidadão brasileiro, dê algumas dicas aos pequenos e grandes leitores de atitudes que podem auxiliar na inclusão social de (pessoas com deficiência). 

CRISTIANO – A primeira dica é não esquecermos que todas as pessoas são diferentes, com ou sem deficiência, e que todas as diferenças devem ser respeitadas.

Outra dica é que, Inclusão é para todas as pessoas, e não somente para quem tem algum tipo de limitação física ou sensorial. Uma rampa pode servir tanto para um cadeirante quanto para uma pessoa idosa que não consiga subir os degraus de uma escada.

E por fim, que pessoas com deficiência não devem ser subestimadas nas suas capacidades e nem tratadas como heróis simplesmente pelo fato de possuírem uma deficiência.

(Divulgada originalmente em www.leiturinhas.com.br em abril de 2013)

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Categoria : Entrevista
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