LEITURINHAS ENCANTADORAS

Postado em 22 de janeiro de 2018 por Seja o primeiro a comentar

“Ninguém precisa ser poeta para viver em estado de poesia.”

(Marcio Vassallo)

Marcio-Vassallo-Galeria

Márcio Vassallo nasceu no Rio de Janeiro, no dia 18 de dezembro de 1967. Jornalista e escritor, faz palestras e oficinas, há mais de vinte anos, em todas as regiões do Brasil. Com títulos publicados na Itália, no Chile e na Argentina, Márcio é autor de vários livros, dentre eles os infantis A professora encantadora e De filho para pai, publicados pela editora Abacatte; e Mario Quintana, primeira biografia do poeta gaúcho, lançada pela editora Moderna, dentro da coleção Mestres da Literatura. Esse três livros e outros tantos foram selecionados para o Catálogo de Autores Brasileiros da Feira do Livro de Bolonha, na Itália, pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, seção brasileira do IBBY – International Board on Books for Young People, órgão consultivo da Unesco. Foi também repórter do Segundo Caderno, do jornal O Globo, e do suplemento cultural Bis, da Tribuna da Imprensa. Há 23 anos, Marcio Vassallo trabalha como mentor literário para autores de todos os gêneros e presta consultoria para editoras, avaliando projetos, originais, coleções e linhas editorais. Já trabalhou para as editoras Objetiva, Record, Moderna, Rocco, Geração Editorial, Versal, Ediouro e Campus/Elsevier.

Visite o site do autor: <marciovassallo.wordpress.com>

LEITURINHAS – Além de escritor e jornalista, você tem uma profissão um tanto incomum (e valiosa): consultor literário. Comente um pouco sobre essa “mentoria literária” (o termo foi retirado de sua homepage).

MARCIO VASSALLO – Nesse meu trabalho, avalio se o que os escritores escreveram reflete suas próprias essências, suas próprias buscas; se está mesmo maduro para ser publicado, ou se vale a pena fazer ajustes, ou desajustes, na estrutura do texto, no fio da história, na construção dos diálogos, na linguagem usada, na composição das personagens, nas verdades mais íntimas da história que escreveram. 

LEITURINHAS – Como nasceu a ideia desse seu trabalho de consultoria para autores?

MARCIO VASSALLO – Na década de 90, editei o jornal literário Lector, que trazia entrevistas com escritores, editores, críticos, agentes literários e livreiros. Nessa época, alguns autores começaram a me pedir que opinasse sobre os textos literários que escreviam. E eu fazia isso de um modo informal. Até que a procura aumentou muito, e então resolvi profissionalizar esse trabalho. Lá se vão 25 anos.

 

LEITURINHAS - Ao longo desse processo, muitas dúvidas costumam povoar a cabeça de quem colocou o ponto final em um texto, ou em pleno processo criativo?

MARCIO VASSALLO – Sim, por isso, para saber se o que escreveu está pronto para ser enviado a uma editora, em geral os autores recorrem às opiniões de amigos, familiares ou de outros escritores. Só que, em geral, essas pessoas não conseguem dizer realmente o que pensam, por inexperiência na área, ausência de senso crítico, intimidade demais com o autor, medo de decepcioná-lo, falta de tempo, desejo de não se comprometer, ou indisponibilidade para fazer uma avaliação sensível, profunda e imparcial. Dessa forma, os autores acabam escutando das pessoas frases de incentivo, ou não, mas sem justificativas críticas que colaborem para o amadurecimento do livro e aumentem as possibilidades de entrar no coração dos leitores. Foi a partir dessa lacuna que comecei a receber solicitações de autores de todos os gêneros, iniciantes ou não, que gostariam de uma consultoria (quando analiso uma obra específica), ou de uma mentoria literária, quando acompanho com regularidade o processo criativo do autor. Assim, ao longo de todos esses anos, tenho recebido autores de todas as regiões do país, na minha residência, em Copacabana, ou trabalhado à distância, via messenger ou e-mail. Também viajo a outras cidades, especialmente para apresentar comentários e sugestões profissionais para escritores em todo o Brasil.

LEITURINHAS – Ao longo desse processo, que dúvidas mais rondam a cabeça de romancistas, autores de literatura infantil e juvenil, cronistas, poetas e contistas? 

MARCIO VASSALLO – Ah, muitas dúvidas rondam a cabeça dos escritores. Será que há excessos no texto que poderiam ser enxugados, ou excluídos? Como identificar trechos truncados, redundâncias de recursos criativos, banalizações de imagens, situações inverossímeis, didatismos supérfluos, clichês, incoerências, obviedades, maniqueísmos, ruídos, descaracterizações de estilo, falta de ritmo e obstruções narrativas? Que caminho o autor está seguindo com o texto? O que fazer para achar o fio, a cara, o norte do livro? O que esse autor mais busca quando escreve? Qual a importância da escrita literária na sua vida? E quando um autor é econômico demais na criação da sua obra, com a falsa convicção de que sempre precisa ser mais conciso e enxuto? Será que, na realidade, ele poderia desenvolver mais algumas circunstâncias, aprimorar ações, desdobrar cenas, aprofundar o que está superficial no texto, mergulhar de cabeça em determinadas metáforas, entrar mais em algumas personagens? Também tenho trabalhado muito com autores de não ficção (biografias, ensaios, obras acadêmicas, livros jornalísticos e das mais diferentes áreas), analisando a harmonia entre forma e conteúdo. Nesse sentido, trabalho uma série de questões, entre elas: quais os diferenciais do livro em relação ao que já existe publicado? De que modo tornar um texto atraente e valorizar ainda mais as informações, sem deixar que o conhecimento atropele a forma? O que fazer para conquistar um público leigo sem abrir mão de conhecimentos específicos? Quais os segredos para transformar uma tese num livro? Como elaborar um sumário que provoque o interesse do leitor? Qual a importância do título e do subtítulo do livro? O que é mais adequado para entrar, ou não, na orelha, na quarta capa, no prefácio, na apresentação?

LEITURINHAS – Onde se situa a sua concepção sobre o processo de criação literária, mais para uma aptidão ou uma habilidade adquirida?

MARCIO VASSALLO – Não há escritor sem aptidão, mas nenhuma aptidão se mantém sem muito trabalho e reparo. Escrever é um exercício diário de botar reparo no olho, não só quando estamos na frente do computador, ou da folha em branco, mas para tudo que existe a nossa volta. E um escritor precisa trabalhar sem parar; precisa tirar os sapatos das palavras, tirar as roupas das frases, despir os formalismos do texto, para que o leitor tenha a sensação de que não houve trabalho nenhum e ficar mergulhado no livro, sem achar que por trás desse livro há um autor que tentou impressioná-lo.

LEITURINHAS – Frequentemente você ministra oficinas como “criação literária” e “educação para o encantamento”. Qual o público-alvo e os objetivos de cada uma delas?

MARCIO VASSALLO – Quem mais participa das oficinas de criação literária são escritores, ou candidatos a escritores que desejam aprimorar o seu estilo, para escrever com cada vez mais autenticidade, verdade íntima e senso crítico. O público das oficinas de educação para o encantamento é formado na maioria das vezes por pais, professores, educadores em geral, psicólogos, artistas e pessoas em geral que estão com urgência essencial de reparar poesia, o encantamento e a beleza no dia a dia, apesar de tudo o que tanto acontece para que não reparemos nada disso. Mas não penso em público-alvo quando escrevo nem quando faço as minhas oficinas. Para mim, quem tem público-alvo é atirador de facas. Escrevo para quem tem precisão de poesia na veia, e para dar conta das minhas asfixias, dos meus sobressaltos, das minhas faltas, dos meus excessos. Entretanto, nunca consigo dar conta de todos esses sentimentos, claro, e sempre penso que poderia ter tocado em mais coisas numa história. Por isso, quando me frustro ao constatar isso, tenho que reescrevê-la, ou escrever um novo livro. Acho que a frustração é uma das molas da criação. E de fato não escrevo para atingir leitores. Isso pode ser, ou não, uma consequência do meu trabalho, jamais um fim. Na realidade, escrevo sobre o que mais me atinge, o que mais me perturba, o que mais me afeta, o que mais me assombra, o que mais me inquieta, o que mais me seduz. 

LEITURINHAS – Enquanto escritor e mentor literário, como você observa os rumos que a Literatura Infantil segue no século XXI? Quais os rumos que a Literatura Infantil segue no século XXI? 

MARCIO VASSALLO – Literatura infantil é um rótulo do mercado. Rótulos reduzem a arte. E estou aqui pensando no que seria uma literatura de rumo pegado. Acho que a literatura serve, entre outras importâncias, para abrir na gente uns rumos de dentro, para nos desviar de uns rumos também; para nos desnortear, nos desarrumar, nos desajustar, nos desconcertar, nos desorientar, nos incendiar; nos tirar o chão, nos devolver a asa.

LEITURINHAS – Qual o perfil (ou os perfis) do pequeno leitor na atualidade?

MARCIO VASSALLO – Olhar um leitor de perfil é uma cena bonita. O leitor é alguém que não resiste à vontade de ler tudo o que passa por ele: uma cena de amor aplaudida na rua, uma lua pendurada no varal, uma mulher pegando um trem para delírio. Olhar o perfil de um leitor pode ser bonito, sim, mas também gosto de olhar as pessoas por trás, pela frente, pelos lados, por todos os ângulos, sobretudo por seus avessos. Mas, de verdade, penso que não há pequenos leitores nem leitores do futuro, como dizem. Não dá para medir leitor no olho. E tenho horror à expressão “leitor do futuro”. Para mim, quem lê o futuro é cartomante. Dizer que uma menina é leitora do futuro é o mesmo que afirmar que ela não está lendo nada no momento; que está só ensaiando para um dia ler escritores de verdade; ou seja, nesse caso, é como dizer a essa menina que ela também não existe, que está só ensaiando para um dia ser alguém de verdade, como se as crianças fossem meros esboços dos adultos que vão se tornar. Esse é um pensamento medíocre, reducionista, empobrecedor. Uma criança não lê hoje a Sylvia Orthof, a Janaína Michalski, a Thais Velloso, ou a Christiane Griebel, para um dia ganhar um selo de formado, se tornar gente, e aí sim ler a Lygia Fagundes Telles, o Kafka, Clarice Lispector, o Machado de Assis.

 mario quintana por marcio vassallo

LEITURINHAS – Mario Quintana tem sido tema de palestras e oficinas que você ministra pelo Brasil, além de ter sido tema de um livro seu (biográfico). Por que Quintana?

MARCIO VASSALLO – Mario Quintana e Manoel de Barros são os poetas que mais me desconcertam, mais me tiram o sono, mais, mais me povoam de infâncias. Fui amigo do Manoel (tive esse luxo na minha vida), mas não conheci o Quintana pessoalmente. Ele diz que o fato é um aspecto secundário da realidade. Gosto muito dessa frase, mas o fato é que escrevi uma biografia do poeta e também organizei uma antologia temática com pensamentos dele, para encontrá-lo de alguma forma.

LEITURINHAS - No livro “De filho para pai” as personagens aproveitam para apreciar a vida sob uma perspectiva bastante poética, como passear pela Rua do Silêncio, ou mesmo olhar a lua até gastar. No mundo real, apressado e concreto, como encontrar espaço para essas sutilezas?

2013-De-filho-para-paiMARCIO VASSALLO – Andar pela Rua do Silêncio e olhar a lua até gastar são escolhas que fazem parte do mundo real. Como encontrar espaço para respirar? É possível amar de olho no relógio, ou no celular? Em que aspectos mais precisamos usar a fantasia para tirar mesmice do dia, dos nossos pensamentos, dos nossos desejos mais essenciais? Precisamos parar para reparar e reparar para parar e ver todas as belezas que estão disfarçadas a nossa volta. Ninguém precisa ser poeta para viver em estado de poesia. E viver em estado de poesia é não dar conta de resistir a olhar com olho de assombro e descoberta para tudo o que de mais sutil, áspero, mágico, duro, macio, belo e humano que cruza o nosso caminho todos os dias. Não temos que encontrar espaço para essas sutilezas. Temos é que pegá-las pelo cabelo e puxá-las para dentro de nós, para transformarmos a realidade, para nos reinventarmos, para nos reaproximarmos de tudo o que temos de mais belo, interessante, perturbador e original, para compensar a vida. “A arte existe porque a vida não basta”, escreveu um dia o Ferreira Gullar. Penso isso agora olhando um quadro lindo de morrer da artista plástica Lucia Moretzsohn, As cortinas puxadas para trás, e concordo com o poeta. Se passo muitos dias sem me puxar para a beleza… sem ler um livro, sem ir ao cinema, sem ver uma pintura, sem escutar música na minha vitrola laranja, não me compenso, não me sustento, não me devolvo para mim.

a professora encantadora

LEITURINHAS – No seu livro A professora encantadora, você apresenta uma personagem criativa e sensível, com a habilidade de cultivar o espanto diante de tudo. Qual sua concepção sobre o espanto e como a leitura contribui para isso?

MARCIO VASSALLO – Essa sua pergunta me deixou em estado de espanto explícito. Preciso pensar mais nisso…qual a minha concepção sobre o espanto? Uma das coisas que mais me dão fissura é me espantar com o que é aparentemente banal e sem importância. Penso que uma vida sem espanto, sem susto, sem assombro, é uma vida sem sal. 

 

LEITURINHAS - Para encerrar, quais dicas você daria a professores e pais para estimular o encantamento literário de crianças e adolescentes?

MARCIO VASSALLO – Acho que nem tudo o que nos surpreende é encantador, mas tudo o que é encantador, de alguma forma, nos surpreende. Então, sugiro que os professores e os pais se disponibilizem por dentro para descobrirem o que mais encanta a eles mesmos, antes de tentarem seduzir as crianças e os adolescentes para que se encantem com os livros. Ninguém pode encantar o outro se não estiver encantado também. Minha dica? Olhem para tudo com olho de primeira vez; rendam-se, desprotejam-se; desarmem-se paras as cenas do cotidiano que passam batidas por nós e que não conseguimos reparar por conta das nossas urgências, por conta dos nossos prazos, das nossas cobranças, das nossas obsessões mais exaustivas em busca da perfeição. 

Categoria : Entrevista
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