A menina arco-íris: o branco como ausência I

Postado em 25 de março de 2015 por Seja o primeiro a comentar

menina arco íris(por Leny Zulim)

1-Introdução

Pretendo neste nosso encontro trazer como assunto o livro de Marina Colasanti A menina arco-íris. Em sua quinta edição (Global/2007/) a obra se apresenta ao leitor com esmerada qualidade e beleza, seja em termos de ilustração (da própria autora, que é formada pela Escola Nacional de Belas Artes), do papel utilizado, do extremo cuidado gráfico e da trama em si, o que não surpreende quem aprecia a literatura de Marina, pois tais características são comuns em tudo o que faz. E ela quem afirma (1997): “Sou uma apaixonada pela forma. (…) Gosto de economia, dizer o máximo com o mínimo, o texto bem enxuto.” E diz ainda que se ajoelha ante uma bela metáfora.

Marina é um caso raro de talentos múltiplos, todos voltados para as artes. É poeta, artista plástica, cronista, tradutora, contista (seus novos contos de fadas amplamente premiados) e ainda trabalhou na imprensa. Seu interesse na literatura se volta para aquela coisa atemporal chamada inconsciente, pois para ela a verdade é que em época de transformações rápidas muda a realidade externa, mas a realidade interior de cada ser, feita de medos e fantasias, se mantém inalterada (2003).

Eliana Yunes, apresentando o livro de Marina, Entre a espada e a rosa, afirma em determinado ponto de seu texto: “Marina está no seletíssimo grupo de escritores brasileiros reconhecidos como exponenciais no campo de uma literatura que, dialogando também com crianças, não se apequenou.” E encerra a conversa dizendo: “os que conhecemos Marina, sabemos que ela vê também, de verdade, com os olhos do coração.” Com ela é assim. Por vezes seu modo de narrar é lento, como se ela buscasse e conseguisse ler a alma de seus personagens, acompanhando-os em suas ações, com uma força simbólica tal que não se enquadra em rótulos ou classificações. Por outras, o insólito sempre presente aponta para o trabalho artesanal da linguagem, extremamente melódica e sugestiva (Zulim at alli, 2007). Quando nos dispomos a ler um conto de Marina precisamos estar dispostos a buscar o oculto, o sugerido, o obscuro, o não dito, as entrelinhas. Isso porque em sua literatura símbolos e alegoria, como que sorrateiramente, tomam de assalto a narrativa. Para desvendá-los há que se munir o leitor de espírito de curiosidade e paciência, percorrendo as veredas que o texto sutilmente indica (id. ib). Sobre tais afirmativas voltaremos a falar quando nos detivermos sobre o livro em questão.

A literatura infanto de Marina enquadra-se na tendência que Lajolo e Zilberman (1985) nomeiam como Em busca de novas linguagens, que caracteriza a produção infanto-juvenil do pós 70.  É, segundo as autoras, uma literatura que possui caráter emancipador uma vez que ao dar voz à criança, leva o pequeno leitor a refletir, a tirar conclusões, a se expressar e assim a compreender melhor o mundo e sua realidade imediata. a tirar conclusões. Assim, a voz do adulto fica em segundo plano, esquecendo-se o pedagógico e priorizando o modo como a criança pensa, destacando-lhe a personalidade.

II- A menina arco-íris: um pouco do enunciado

A capa do livro em pauta tem um tom azul esmaecido onde se lê na parte superior o nome da autora, em letras pretas, e o título do livro, logo abaixo, com letras em cores diferentes para formar a palavra menina, e arco-íris com letras em tom azul anil. Logo abaixo, uma menina que se entende como a protagonista Virgínia, sentada na forma de yoga, com longos cabelos loiros, saia azul e blusa verde. Depois, lendo a história, tomamos conhecimento de que tinha também olhos, laços, casaco, tudo colorido. Tomamos conhecimento também de que a menina, ao tomar o café da manhã, se debruçara demais sobre a xícara de leite e acabara nela caindo, deixando-se ficar no fundo branco, com tudo branco ao redor, sem caminho visível, sem nuvens, e um silêncio parado feito algodão. Branco também esse silêncio, intuímos.

A primeira idéia da menina foi… esperar. Esperou até que um sino, um primeiro som que ouviu, mostrou um caminho, um pastor e suas ovelhas, todos brancos. O colorido da menina encheu de alegria o pastor que saía assim de seu mundo branco. Ele sorriu porque ela era a primeira menina arco-íris que via em seu mundo. Ela sorriu prá ele porque era a primeira pessoa toda branca que via e clareava sua vida.

Vendo o azul da saia da menina o pastor pediu um pedaço daquela cor que ondeando se alastrou pelo céu pálido. A moça branca, que bebia leite, veio ver o que era e pediu um pedaço da blusa de Virgínia, deitando-o no chão. Os carneiros logo começaram a pastar o novo gramado. E assim a menina foi partilhando todo o colorido que trazia. O homem que colhia maçãs, também brancas, pediu um pedaço do laço esmeralda que ela trazia no cabelo. Ganhou de acréscimo um beijo para colorir as frutas. Os pássaros roubaram um pouco do preto dos olhos dela e, como andorinhas, saíram pelo ar em gritos de canção cujo alarido chegou ao pintor de paredes. Numa seqüência de ações daquelas que chamamos efeito dominó, ele derruba a lata de cal, que rola até os pés da lavadeira que larga os lençóis no varal que despencam na poeira talco. E o branco se alastra. Então um poeta, também em um mundo branco, vai até Virgínia e se deslumbra. Para lá da menina tudo era branco, opaco, sem vida, mas ao redor dela tudo era cor e era alegria. E é o poeta que, pedindo uma mecha dourada do cabelo da menina, espeta-o no céu fazendo o sol brilhar. E assim, o branco foi inundado com todas as cores e as pessoas cantaram e dançaram numa alegre ciranda, enquanto o leite da xícara subia, transbordando e levando Virgínia para fora dela, agora com um problema para resolver: de volta à mesa do café, com o colo todo molhado, como convencer a mamãe de que não fora ela a entornar o leite?

III- A enunciação: Buscando o oculto, o sugerido

Quando escreve para crianças e/ou adolescentes Marina tem profundo respeito por seu leitor e já afirmou que vai buscar a matéria prima no fundo da alma (1997). Isso fica bastante perceptível no extremo cuidado que tem com a forma, negando aquela idéia pequena de que porque o leitor é menor “qualquer historinha basta”. Não, a literatura infanto-juvenil assinada por Marina traz excelência estética, fantasia, estranheza. Traz, em suma, emoção. É antes de tudo literatura, sem designar a idade do leitor. Tanto é verdade que crianças, jovens e adultos lêem suas obras com o mesmo interesse e o mesmo prazer. Tudo isso e mais verificamos no livro de que falamos. Tal qual a famosa Alice de Lewis Carroll, Virgínia se vê abruptamente em um outro mundo, ainda que  sem Chapeleiro Maluco, sem a Lagarta Azul, sem a Lebre e sem a Rainha de Copas.. A menina foi parar no mundo branco do leite. É o momento de buscarmos o significado oculto, o sugerido… Comecemos por verificar o que simbolicamente encontramos sobre a cor branca:

          “A cor branca é a mais pura de todas, representa, portanto, à pureza. É a cor   que traz a  paz e o conforto, alivia a sensação de desespero e de choque emocional, ajuda a limpar e aclarar as emoções, os pensamentos e o espírito. Se você precisa de tempo e espaço em sua vida porque se sente pressionado, o branco é a cor que pode dar a sensação de liberdade para esquecer-se das opressões. Demasiado branco, quando não é necessário, pode dar a sensação de solidão e frio, porque o alvo nos separa das outras pessoas. (http://www.euroresidentes.com/ acesso 25/09/2014)

Cor da luz, da pureza e da perfeição. Como ‘cor sem cor’ tanto o branco como o preto, a sua contracor, ocupam uma posição especial entre todas as outras cores (que juntas compõem o branco); associado ao absoluto, ao começo e ao fim (Lexikon 1990).

Um ambiente branco proporciona frescura, calma e dá idéia de maior espaço, proporcionando a sensação de liberdade. Em excesso, pode dar a impressão de frieza, vazio e impessoalidade. O branco oferece uma combinação perfeita com qualquer outra cor. (http://www.significados.com.br/cor-branca/ acesso: 25/09/2014)

Relacionando as citações acima ao livro em análise, parece que podemos elencar as seguintes idéias como conclusão da leitura:

a-      O insólito, que provoca estranhamento no leitor, torna-se maior ainda pela forma como se segue o enredo: o que se vê com tanto branco é tédio, ausência de vida, ausência de cor e de alegria, em oposição a essa menina arco-íris;

b-      Toda aquela brancura parada, de algodão, que em princípio encantou a menina, (talvez porque, como vimos, o branco proporciona, calma, sensação de liberdade, traz paz e conforto; talvez porque tudo o que vemos de diferente nos chama a atenção) sugere, contudo, ausência de vida, de alegria;

c-      Se em excesso, como lemos na última citação, a cor branca pode significar frieza, vazio e impessoalidade; assim, compreende-se a alegria das pessoas após Virgínia partilhar suas cores; tudo em suas vidas era muito branco, sem cor, sem alegria; É por isso que elas cantam e cirandam quando seu mundo ganha cores. Tudo que era frio, trazendo com isso idéia de solidão e impessoalidade, passa ao colorido, à alegria, com as pessoas se encontrando, rindo cantando;

d-     Mas isso aconteceu como conquista: quando as pessoas desencadeiam ações rápidas e vão até a menina arco-íris, são elas que fazem a mudança solicitando pedaços de cores da menina; essa mudança é rápida, célere, como vemos, por exemplo, à pág. 18, estendendo-se até à página 21: “que derrubou a lata de cal que rolou aos pés da lavadeira que largou os lençóis no varal que caíram na poeira talco”. A ausência de pontuação torna a narrativa rápida, é urgente ver o que acontece; é urgente mudar a situação…

e-      Por isso também, a partir do momento em que a vida branca começa a receber as cores partilhadas pela menina, as páginas do livro tornam-se coloridas, o amarelo, o verde, o laranja tomando de assalto aquela enorme brancura, inundando de luz o mundo das personagens;

f-       Ao mesmo tempo, o encontro da menina arco-íris com o branco total daquela vida existente no leite, acaba por oferecer troca e generosidade, pois tanto a menina quanto os habitantes do mundo branco se enriquecem com o que cada um tem a oferecer;

g-      O final, com Virgínia retornando ao mundo real, das justificativas e explicações para os adultos, mostra que a fantasia e a imaginação nos proporcionam momentos de genuína emoção e absoluto prazer.

Enfim, pleno de fantasia, bem construído, o livro em questão oferece uma gostosa e prazerosa leitura, em que o sonho, o onírico, são elementos fundamentais para a construção do enredo, com a realidade batendo à porta ao final da história. Em nosso próximo encontro vamos falar mais dessa bela obra, apresentando também  sugestões para trabalhar com esse livro em sala-de-aula. Até lá ou, se preferir, faça contato pelo e-mail: www.lenyfz@ibest.com.br

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

COLASANTI, Marina. A menina arco-íris 5 ed.. São Paulo: Global, 2007.

—. Uma idéia toda azul, 22 ed..São Paulo; Global, 2003

—. Longe como o meu querer. São Paulo: Ática, 1997.

HTTP://WWW.EURORESIDENTES.COM. Simbologia do branco. Acesso em 25 de setembro/2014

HTTP://WWW.SIGNIFICADOS.COM.BR. Cor-branca/ acesso: 25/09/2014)

LAJOLO & ZILBERMAN. Literatura infantil brasileira: história e histórias 2 ed.São Paulo: Ática, 1985.

LEXIKON, Herder. Dicionário de símbolos, 13 ed.. São Paulo: Cultrix, 1990.

YUNES, Eliana. A dama dos contos. In: COLASANTI, Marina. Entre a espada e a rosa. Rio de Janeiro: Salamandra, 1992.

ZULIM at alii. Entre a espada e a rosa, de Marina Colasanti: na alegoria fusão e embate do masculino/feminino. In: Máthesis: Revista de educação. Jandaia do Sul; FAFIJAN, 2007.

Categoria : Literatura na escola
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