O TATU BOLA QUERIA SER BALÃO

Postado em 6 de junho de 2016 por Seja o primeiro a comentar


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Rápida introdução:

Recebi há poucos dias os livros infantis que a Fundação Itaú distribui anualmente para as pessoas que se cadastram e fazem um trabalho de leitura com crianças. São duas as obras que compõem o kit deste ano: Dorme, menino, dorme, de Laura Herrera, um belo livro com ilustrações primorosas de July Macuada, e Tatu Balão, de Sônia Barros, com ilustração de Simone Matias. Deste falaremos neste artigo. Mas, antes falemos um pouco do trabalho da Fundação Itaú Social. Num país tão necessitado de divulgação da cultura, o serviço prestado por ela é digno dos maiores elogios.

O trabalho da Itaú Social, desenvolvido continuamente desde 1997, é uma das principais ferramentas para promover a reflexão sobre a produção artística brasileira e a identificação de referências e novos talentos que possam contribuir para o desenvolvimento de uma visão sobre a arte nacional. O Itaú Cultural também se abre para o diálogo com a sociedade por meio de exposições temporárias e permanentes, que podem ser visitadas gratuitamente em sua sede, localizada na Avenida Paulista, 149. No ano de 2010, o instituto recebeu 253.097 mil visitantes e cerca de 16.600 estudantes, de escolas públicas e particulares O Itaú realiza uma série de programas e parcerias para tornar o Estatuto da Criança e do Adolescente uma realidade para todos. E investe cada vez mais na qualidade da educação. Nesse espírito, lançou já há vários anos a Coleção Itaú de Livros Infantis criada para ajudar a despertar desde cedo o prazer pela leitura. Ela foi feita para todos aqueles que acreditam que a educação é o melhor caminho para a transformação do Brasil (https://www.itau.com.br/crianca/ acesso em 28/12/2015). Junto com os livros que envia a quem se cadastrou por fazer qualquer trabalho com leitura direcionado a crianças, incluem dizeres e slogans motivadores como Ler para uma criança muda a sua história; Eu leio para uma criança; Leia para uma criança: #isso muda o mundo; Ao abrir a página para se cadastrar encontram-se dicas e sugestões de como ler ou contar histórias de modo a formar leitores. E também informações sobre os livros que serão distribuídos, bem como textos sobre a importância da leitura na vida de uma criança. Pais, professores e agentes de leitura, portanto, encontram ali subsídios para seu trabalho além de, cadastrados, receberem novas obras para incrementar seu acervo. Antes de qualquer coisa, então, sugiro que todos, periodicamente visitem a página do Itaú.com.br/criança e se cadastrem, anualmente, para receberem os livros.

E agora vamos ao Tatu Balão, nosso livro que é tema deste artigo. Primeira informação: é um livro de poema narrativo. Ou seja, há uma história, um enredo, contado em versos. Segunda: o livro foi publicado pela Aletria em 2014, editora sediada em Belo Horizonte. Terceiro: texto e imagem se completam, se integram, formando um rico e belo conjunto a chamar à fantasia o leitor. A qualidade das imagens a ilustrar a obra se equipara, com certeza, à do texto provando que essa dupla poderá ainda presentear seu público com novas joias literárias.

Conhecendo autora e ilustradora

a-      A autora

Sônia Barros, a autora do livro informa que, em sua infância, livros eram seu brinquedo favorito. Estava sempre lendo algum livro emprestado da biblioteca da escola ou da Biblioteca Pública de Santa Bárbara do Oeste, onde cresceu e ainda mora. Professora por muitos anos, afirma na contracapa da obra ora em estudo, que sempre desejou apresentar aos alunos o mundo maravilhoso da leitura. Fez teatro, aulas de canto e dança para finalmente se decidir ser escritora, “para tentar fazer o mesmo que tantos autores fizeram por mim: oferecer [aos pequenos leitores] caixas de surpresa que façam sonhar”.

Entre tantas outras obras, Sônia tem publicadas além de Tatu Balão: Novelo, Diário ao contrário e Fios, este último ganhador do Prêmio Paraná de Literatura em 2014 (www.escritorasoniabarros.blogspot.com acesso em 28/12/2015).

Diz ela em seu blog acima citado: “Nascimento de livro é sempre uma grande alegria! Tatu-balão é o meu décimo nono, mas parece ser o primeiro, pois a emoção se renova a cada livro, a cada nascimento! É o meu primeiro livro pela Editora Aletria (das queridas Rosana e Juliana Mont’Alverne), que fez um trabalho de edição primoroso! E as belíssimas ilustrações são da Simone Matias”.

b-     A ilustradora

Simone Matias, a ilustradora de Tatua Balão, informa: “Sou ilustradora e amo muito o que faço. Livros e desenhos sempre estiveram presentes na minha vida. Descobri a ilustração infantil durante um intercâmbio  nos Estados Unidos, onde trabalhei como babá.  Enquanto lia as histórias para as crianças, me apaixonava pelos lindos desenhos e ficava sonhando em trabalhar com tintas, pincéis, texturas, cores e histórias. Assim redescobri a Simone menina, que passava horas rabiscando na lousa pendurada na parede de casa. Enquanto perseguia meu sonho, fiz muitas coisas, fui vendedora, tradutora e professora de inglês. Hoje vivo esse sonho todos os dias, transformando palavras em imagens. Cada livro é um mundo novo, um infinito de possibilidades que vou explorando e traçando, sempre com muito amor” (http://www.simonematias.com.bracesso em 28/12/2015). Afirma ela ainda que “vivo meu sonho todos os dias, transformando palavras em imagens.” Suas ilustrações integraram a exposição Traçando histórias”, na Feira do Livro de Porto Alegre, entre 2010 e 2012 e a exposição do 15 Salão FNLIJ (Fundação Nacional da Literatura Infanto-Juvenil/2013 no Rio de Janeiro. Tem mais de quarenta obras ilustradas, entre as quais citem-se: Batu, o filho do rei, de Celso Cisto; Luiz Lua Gonzaga, o rei do baião, de Dilvia Ludvichak.

Finalmente, vamos ao Tatu Balão…

A autora afirma em seu blog já citado: “Este é um livro especial. Conta a história de um tatu, mas também a minha, e a de muita gente. História de um sonho e, principalmente, da luta e persistência para realizá-lo! História de amor e de amizade. E de partilha!” E com certeza é por aí que o enredo, contado e cantado em versos, caminha. Um Tatu bola era diferente de seus iguais porque tinha um sonho diferente: queria voar, ser tatu balão e não tatu bola. Por isso não era feliz. Procurando realizar esse sonho, muito determinado, ele subia dia sim e outro também, no alto de uma montanha e, corajoso, se lançava desejando finalmente tornar-se… tatu-balão! Porém, como se lê às tantas páginas, “… em vez de ele voar/como havia planejado, começava a despencar,/rolando desenfreado!” E então, depois de tantos tombos e peripécias, ele encontrou… Damião. E mais eu não conto não. Quer saber o que ocorreu com esse tatu matreiro? Melhor fazer como eu. Pegue o livro e…leia inteiro. Brincadeirinha, conto sim. Embora seja essa (parar em um ponto estratégico do enredo) uma forma de instigar o leitor a procurar a obra para conhecer seu desfecho. A verdade é que Damião e o Tatu se tornam amigos e um dia, o menino mostra ao Tatu seu melhor passatempo: “Como era dia de vento/Damião mostrou ao tatu/o seu melhor passatempo: empinar pipa no azul.” E continua a história em poesia: “De repente, vendo a pipa/ser levada pelo vento/descobriu feliz da vida,/ que era um mágico momento. A partir daí não fica difícil imaginar o final: a amizade se aprofunda entre o tatu (que realiza seu sonho) e o menino que lhe oportuniza isso.

Vamos agora a alguns comentários críticos sobre o livro:

Em versos simples, que cativam o pequeno leitor, porém muito bem elaborados, conta-se a história do protagonista, um tatu bola, insatisfeito e infeliz porque queria voar, feito um balão. Insatisfeito e infeliz, sim. Acomodado, jamais. Desistir não fazia parte de seus planos.  Tanto é que, diuturnamente, ele tratava de subir um morro até o topo e de lá se lançava buscando subir feito um balão. “Sentia, enquanto rolava,/disparar seu coração./ O tombo só terminava/cara-a-cara com o chão.”

Como as narrativas primordiais, os contos de encantamento de Perraul, dos irmãos Grimn ou de Andersen, esse texto de Sônia Barros ajuda a criança, subliminarmente, a entender que a vida apresenta obstáculos cotidianos que precisam ser enfrentados, uns mais fáceis outros mais difíceis, mas é preciso coragem e ousadia para vencê-los. Esse o maior ensinamento que o sonhador e determinado protagonista oferece a seus leitores: nada de acomodação; nada de abandonar um sonho apenas porque é difícil concretizá-lo. É preciso lutar com denodo para conquistar seu objetivo, seu sonho.  Sobre essa função da narrativa afirma Aguiar (s/d: p. 27):

                        Todos os ingredientes que compõem as narrativas (como a multiplicação de situações, a ênfase na solução dos problemas, a riqueza das ações, a ordenação de um mundo variado, em que diferentes situações temperamentos convivem) promovem o alargamento vivencial dos pequenos, incitando-os a participarem das aventuras e buscarem respostas. Contudo, é importante salientar que o nível de compreensão infantil é respeitado e a fantasia presente nas histórias, não representa fuga do real, mas justamente a forma mais apropriada para sua percepção.

Comentando o mesmo assunto, Bettelheim (1979) afirma em obra já clássica que esse tipo de narrativa auxilia o pequeno leitor a ter respostas a questões essenciais tais como: O que é o mundo? Como posso viver nele? Porém as respostas apenas sugerem soluções, não as explicitam de modo que as crianças possam preencher as lacunas do texto com suas fantasias.

Por outro lado, vale lembrar aqui, que o texto em estudo através da amizade entre o tatu e o menino Damião, ressalta o valor da amizade e da partilha. Nos encontros e brincadeiras entre Damião e o tatu, no fim de contas, o principal desejo do Tatu Bola (voar) fica em segundo plano. Embora através da pipa ele tenha realizado seu grande sonho pendurando-se na “rabiola” já não era o mais importante. Mais importante que isso era brincar com Damião, trocar ideias e confidências, chegar ao topo do monte e soltarem-se morro abaixo rindo, experimentando e partilhando experiências e amizade. Eis aí uma bela sugestão de leitura para os pequenos.

 REFERÊNCIAS

AGUIAR, Vera T. Descobrindo os contos de fadas. In: O pássaro Dourado. Porto Alegre: Kuarup, S/D.

BARROS, Sônia. Tatu Balão. Belo Horizonte: Aletria, 2014.

BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979

<https://www.itau.com.br/crianca>. Acesso: 28 dez. 2015;

<https//www.escritorasoniabarros.blogspot.com>. Acesso em: 28 dez. 2015

<http://www.simonematias.com.br>, Acesso em: 28 dez. 2015

Categoria : Literatura na escola
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