REVISITANDO UM CLÁSICO DOS ANOS SETENTA: SANGUE FRESCO, DE JOÃO C. MARINHO

Postado em 18 de junho de 2015 por Seja o primeiro a comentar

(por Leny Zulim)

sangue frescoÉ bastante conhecida a explosão, tanto em quantidade quanto em qualidade, que se deu na literatura infanto – juvenil brasileira a partir da década de 70 no século passado. O número de títulos publicados e o esmero na estética, juntamente com o surgimento de nomes que vieram a público, tornou esse período, que segue até nossos dias, rico e único. Para atestar a afirmativa basta lembrar alguns prêmios internacionais recebidos: Lygia Bojunga Nunes e Ana Maria Machado com o Nobel da literatura infanto, outorgado pela Dinamarca, o Hans C. Andersen; Marina Colasanti com o Prêmio Latino americano Norma Fundalectura/1996 pelo livro Longe como o meu querer, para citar os mais notórios. Também o atesta o número de publicações em língua estrangeira de títulos brasileiros, dos quais O menino maluquinho, de Ziraldo parece ser o campeão. Além disso, como afirmam Lajolo & Zilberman (1985), a partir dos anos 60 “multiplicam-se instituições e programas voltados para o fomento da leitura e a discussão da literatura infantil como a Fundação do livro escolar, a Fundação Nacional do livro infantil e juvenil…” Ao mesmo tempo, o país foi vendo surgir nomes de estudiosos voltados para o estudo e a crítica dessa literatura de que as duas anteriormente citadas são exemplos.

Nessa profusão de títulos e autores, Lajolo e Zilberman (op. cit.) estudam e organizam as principais tendências observadas no segmento: a narrativa infantil em tom de protesto; a literatura infantil em ritmo de suspense; a ruptura com a poética tradicional e em busca de novas linguagens.

Nosso intento hoje é buscar entender um pouco a segunda tendência, o suspense, que vem na esteirada influência cultural norte-americana, que invadiu o país a partir dos anos sessenta com o domínio dos produtos Disney e do cinema de Hollywood.  Maso que vem a ser mesmo o suspense? Inicialmente, podemos afirmar que o suspense é caracterizado pela trama policialesca, que oferece ao leitor divertimento, desafiando sua inteligência para elucidar enigmas. O inglês Conan Doyle, criador do célebre Sherlock Holmes, e a também britânica Agatha Christie, criadora do também célebre detetive Hercule Poirot, são os melhores exemplos dessa tendência que tomou de assalto o cinema hollywoodiano.

Nas décadas finais do Século XX, segundo Lemos & e Zulim (2012:37) “começou a fluir a literatura policial, com muitas obras destinadas à faixa infanto – juvenil, destacando-se Lúcia Machado de Almeida, Stella Carr, João Carlos Marinho, Marcos Rey e Pedro Bandeira, nomes que, entre outros, foram agradando e conquistando o público adolescente.”

Lajolo & Zilberman em livro já citado aqui (1985:141) informam as características básicas desse segmento:

O que identifica certos livros policiais e de ficção científica como infantis [ou infanto-juvenis] é a presença de crianças como detetives ou beneficiários dos poderes agenciados pela ciência. Além disso, a imaturidade do público a que se destina tais obras costuma excluir delas o ambiente de violência generalizada e corrupção em que certos livros congêneres não infantis costumam mergulhar seus leitores (…)

E continuam elas:

No livro policial infantil, o papel de vilão é sempre reservado a adultos. Assim, o desvendamento do mistério por um protagonista criança representa uma espécie de confronto entre o universo adulto e o infantil: e a vitória da criança [ou adolescente] sublinha sua argúcia frente ao mundo dos grandes, o que sem dúvida é gratificante para os leitores que se identificam com os heróis dessas histórias.

É o que vemos acontecer nos livros de Marcos Rey, na série que envolve os assassinatos em um hotel cinco estrelas, com o boy Leo e o primo cadeirante, Gino, descobrindo os assassinos; também, é o que vemos acontecer na bem sucedida série com o grupo dos Karas, em que Pedro Bandeira acabou por escrever cinco títulos com os mesmos protagonistas (A droga da obediência; Pântano de sangue; O anjo da morte; A droga do amor e Droga de americana). E o ano passado lançou A droga da amizade, depois de afirmar queo quinto título havia fechado a série.

Hoje, vamos falar de um autor dessa tendência, João Carlos Marinho, e de uma obra sua de bastante sucesso – O gênio do crime.

Logo em sua primeira obra infanto-juvenil, exatamente a que vamos analisar aqui, Marinho conquistou enorme fatia de público. Tanto é verdade que, ao primeiro título seguiram-se outros dos quais os mais conhecidos são O caneco de prata, Sangue fresco e O livro da Berenice, sempre tendo como protagonistas o Gordo, também chamado de Bolachão, e sua turma: Berenice, Edmundo e Pituca.

 A obra desse autor é um dos marcos da renovação da literatura infanto-juvenil brasileira, iniciada na década de 1970, e é sempre citada como uma referência importante por autores dessa geração. Com Sangue Fresco ganhou o Prêmio Jabuti de Literatura Juvenil e o Grande Prêmio da Crítica da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes) de 1982.

Para Lajolo e Zilberman (1985:143) algumas características nos temas e na linguagem do autor são responsáveis pelo sucesso:

A forma pela qual o texto desse autor envereda por uma representação crítica do real é muito sutil e rigorosamente literária: por via da redundância vertiginosa e agressiva dos detalhes da violência ou, paradoxalmente, na naturalidade de registro de ações e instrumentos mirabolantes, ou ainda na sucessão de apelos e recursos sofisticados da técnica. (…) Isso confere ao texto de João Carlos um traço de modernidade e lhe permite inovar esteticamente em um gênero de perfil tão marcado quanto o livro policial.

Por sua vez, Fanny Abramovich (1986:13), comenta sobre seu jeito único de contar as coisas: “É no crescimento dos personagens tentando se localizar neste mundo que o escritor João Carlos Marinho também cresce incrivelmente, se adentrando pela aventura que acontece dentro das pessoas e encontrando o tom exato para contar isso.”

O LIVRO O GÊNIO DO CRIME

O Gênio do Crime é o primeiro livro infanto-juvenil de João Carlos Marinho e vem se mantendo um sucesso há 40 anos com mais de um milhão de exemplares vendidos em 62 edições. Citado como uma das referências fundamentais da literatura infanto-juvenil brasileira das últimas décadas, tem nesse o mais famoso dos livros com o Gordo e sua turma como protagonistas. Em 2006, foi publicado em espanhol com o título El Génio del Crímen e foi adaptado para o cinema, em 1973, pelo diretor Tito Teijido, com o título O Detetive Bolacha contra o Gênio do Crime.

Vamos a um rápido comentário sobre o enredo do livro: trabalhando com o universo infantil, os álbuns de figurinhas de futebol (hoje algo desconhecido da absoluta maioria das crianças e adolescentes) que enlouqueciam a garotada na busca por completá-lo, Marinho narra a história de seo Tomé, proprietário de uma fábrica de figurinhas de futebol. Ocorre que seo Tomé é um empresário sério e oferece, a quem completa o álbum, prêmios realmente bons. O maior deles, um jogo completo de camisas do time que o felizardo quisesse. Acontece que, para oferecer esses prêmios, existiam as figurinhas fáceis, impressas em grande quantidade, e as difíceis, fabricadas em número menor, o que dificultava o fechamento do álbum. Já no início temos uma idéia da situação:

Era um mês de outubro em São Paulo, tempo de flores e dias nem muito quentes nem muito frios, e a criançada só falava no concurso das figurinhas de futebol.

Deu mania, mania forte, dessas que ficam comichando o dia inteiro na cabeça da gente e não deixa pensar em mais nada. Quem enchia o álbum ganhava prêmios bons e jogava-se abafa pela cidade: São Paulo estava de cócoras batendo e virando ( pag. 09).

Logo no parágrafo seguinte lê-se:

Edmundo estava aflito: faz dois meses que só faltava o Rivelino para encher o álbum e poder ir lá na fábrica receber o prêmio. Comprara toneladas de envelopinhos e o Rivelino não saía, virou a cidade nos abafas até de Vila Matilde e do Tucuruvi e num dia foi num treino do Corinthians falar com o próprio Rivelino, inutilmente, porque o jogador também colecionava e não conseguia encontrar a figura dele mesmo (pag. 09).

Acontece que um bom enredo policial precisa desafiar o leitor a sentir-se também partícipe do desvendamento do enigma. E ele surge quando uma fábrica clandestina imprime as figurinhas mais desejadas, as difíceis, e as vende livremente mediante alto preço. Com isso o número de álbuns cheios cresce e seu Tomé não tem mais como dar a todos os prêmios  prometidos, correndo o risco de ver sua empresa afundar. Há uma revolta, as crianças querem quebrar a fábrica, por não cumprir o prometido. É aí que Edmundo, Pituca, Bolachão, e mais adiante Berenice, entram em cena, a pedido de seo Tomé (de quem ficaram amigos), para descobrir a fábrica clandestina e resolver o problema, “botando” o larápio atrás das grades. As crianças, porém, não estão em busca de qualquer “bandido pé de chinelo”. Não. Não se trata de um simples bandido, mas de uma quadrilha chefiada por um gênio do crime, e os meninos terão de botar a cabeça para funcionar se quiserem resolver os problemas de seo Tomé e de sua empresa. Por sua vez, argumentando que criança não deve se meter em assuntos de adultos, que vão correr riscos, o gerente da empresa convence seo Tomé a contratar o maior detetive do mundo: o escocês Mister John Smith Peter Tony – o detetive invicto.

Ocorre que Mr. John é simpático e faz amizade com os meninos. Mas na busca por resolver a intriga vão se cruzar inúmeras vezes. E é nesse cruzamento que Marinho consegue suavizar situações plenas de violência com o toque de humor que lhe é peculiar, como no trecho abaixo, em que o gerente quer impedir que os meninos falem com seo Tomé e sua linguagem erudita recebe a ironia do Gordo:

Como ser-lhes-á fácil concluir, o médico recomendou que trabalhasse menos, para recuperar-se e por isso entregou-me a direção da fábrica por quinze dias, o que muito me honra e envaidece-me.

Poder-se-ía dizer que topamos um chato – cochichou Bolachão para Edmundo que só não estourou de rir com o deboche do Gordo por natural educação e pôs a mão na frente da boca para disfarçar (p. 40) .

Essa linguagem tão própria, que envolve o jovem leitor, faz de Marinho e de sua obra literatura da melhor qualidade, enriquecendo a produção infanto- juvenil brasileira. Hoje ficamos por aqui. Em nosso próximo encontro, faremos uma análise mais aprofundada desse livro. Até lá.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ABRAMOVICH, Fanny. Prefácio. In: MARINHO, João Carlos. Pai mental e outras histórias 2 ed.. São Paulo: Global Editora, 1986

LAJOLO & ZILBERMAN. Literatura infantil brasileira: história e histórias 2 ed.. São Paulo: Ática, 1985

LEMOS & ZULIM. O suspense na literatura infanto-juvenil brasileira. In: Máthesis: revista de educação. Jandaia do Sul: FAFIJAN, 2012

MARINHO, João Carlos. O gênio do crime, 28 ed.. São Paulo: Global, 1986

Categoria : Literatura na escola
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