REVISITANDO UM CLÁSSICO II: O GÊNIO DO CRIME

Postado em 22 de fevereiro de 2016 por Seja o primeiro a comentar

REVISITANDO UM CLÁSSICO DOS ANOS SETENTA II:

O GÊNIO DO CRIME, DE JOÃO C. MARINHO

O_Gênio_do_Crime

 

Rápida Introdução

O livro O Gênio do Crime, de João Carlos Marinho, que tem como subtítulo Uma História em São Pauloé o primeiro do autor, que se firmou como um dos nomes de destaque da literatura infanto-juvenil brasileira desde então e mantém-se um sucesso editorial, com mais de um milhão de exemplares vendidos em 62 edições.  Lançado em 1969 pela Brasiliense e depois incorporado ao catálogo da Global, foi traduzido para o espanhol e já adaptado para o cinema pelo diretor Tito Teijido com o título O detetive Bolacha contra o Gênio do Crime.

Originário da produção da década de 70, o texto de Marinho traz uma temática urbana em que as mazelas da complexa sociedade contemporânea não se omitem ao pequeno ou jovem leitor, rompendo com o mundo rural da quase totalidade das produções anteriores. Sobre essa mudança, Zilberman e Lajolo (1986:178), afirmam:

A adesão da literatura infantil contemporânea ao urbano [trouxe] conseqüências: legitimou definitivamente o tom de oralidade e coloquialismo, isto é, legitimou literariamente um registro lingüístico bastante mais flexível do que o padrão de linguagem em vigor nos primeiros livros brasileiros destinados à infância.

Mudando o cenário, deixando a paisagem rural para centrar-se no mundo urbano, a literatura infanto do pós-70 mudou também a concepção de infância. E com isso outra conseqüência: um grupo de autores, entre eles o da obra em questão, passam a entender a criança como um ser que merece autonomia e fazer-se ouvir tendo respeitada sua voz. Mas, sobretudo, essa literatura passou a ser fértil em livros policiais e de ficção científica, gêneros sem dúvida fortalecidos pela indústria cultural norte americana como já afirmado no artigo anterior. Via de regra, esse tipo de livro traz certos traços específicos, entre eles: a- os heróis são, normalmente, crianças que, reunidas em grupos, derrotam o vilão, quase sempre um adulto; b- omite-se quase que sistematicamente a violência que costuma permear os congêneres não infantis; c- a trama traz, por vezes, digressões informativas e discute valores e comportamentos nos quais se fundem a herança da cultura de massa com a vocação pedagógica que até então tomara conta quase que por completo da nossa literatura infanto (Zilberman & Lajolo, 1986).

Não é o caso de Marinho, contudo. Fazendo enredos policiais, em que o suspense prende o leitor ao texto até a última página, seja pela linguagem, seja pela organização da trama, seja pelo humor que se faz presente este livro (assim como os demais da série: Sangue Fresco, O Caneco de Prata e O Livro da Berenice) se pauta pelo literário e é uma bela sugestão para se trabalhar na formação de leitores.

 

2- O livro

Para iniciarmos nossa conversa sobre a obra em questão, faz-se oportuno lembrar o que diz o estudioso Antonio Candido a respeito da literatura infanto (1986:329):

Talvez o mais difícil de todos os gêneros literários seja a história para crianças. Gênero ambíguo, em que o escritor é forçado a ter duas idades e pensar em dois planos: que precisa ser bem escrito e simples, mas ao mesmo tempo bastante poético para satisfazer um público mergulhado nas visões intuitivas e simplificadoras.

Depois de afirmar que no gênero em pauta há dois tipos de livros, o que procura instruir e o que não procura instruir, Candido lembra que as obras elencadas na primeira tendência estão baseadas num equívoco fundamental. Vale dizer aqui que essa corrente denominada pedagógica, já foi e continua sendo bastante criticada pelos estudiosos do assunto, pois literatura é arte, e como tal deve ser gratuita e não ter compromisso com a instrução escolar. O próprio Candido diz, sem meias palavras, que o equívoco está justamente no fato de que, construídos para instruir, pouco instruem porque ou são tomados como livros de trabalho ou, tomados como livros de imaginação, desgostam a criança para todo o sempre da poesia que lhe parece vulgar e interesseira.

Em seguida, ele diz que são livros de literatura apenas os do segundo tipo, gratuitos, feitos para encantar e o estudioso liquida o assunto afirmando (1986:329):

Estes são, realmente, livros literários: a prova é que sendo de criança são também de adultos. Acho que é este o teste definitivo sobre o valor dos livros infantis, porque, na verdade, o subsolo da arte é uma só. As histórias que apelam para nossa imaginação agem sobre nós como as que encantam as crianças [e jovens, diria eu] de tal forma que se nem todo livro de adulto serve para o menino, todo bom livro de criança serve para um adulto.

 

Ora, quem lê o livro de Marinho, seja criança, adolescente ou adulto, sente-se totalmente envolvido com o enredo. Para começar, vejamos o que nos dizem a esse respeito duas autoras aqui já citadas (1986:179): “…não é por ter traços herdados da cultura de massa que a literatura infantil policial e de ficção científica se condena necessariamente ao clichê e ao estereótipo.” E completam logo depois (id. ib.): “é nessa modalidade que surge uma das mais instigantes vertentes, fecundada pelo humor, nonsense, imprevisibilidade e uso consciente da redundância, recursos fundamentais dos livros de João Carlos Marinho”.

Lembre-se, ainda, que contra qualquer tipo de preconceito, logo no início seu Tomé, o dono da fábrica de figurinhas, confia ao grupo de meninos protagonistas a resolução do mistério que o está levando à bancarrota: “- Meus bons meninos, entrego o caso a vocês; façam como quiserem, comecem por onde acharem bom, eu não darei palpites. O importante é que encontrem a fábrica clandestina .” (p. 19) Contra essa atitude de seu Tomé, o gerente da fábrica lembra, em um discurso “normal” de adultos, que:  “Acho que as crianças são para brincar e não para se botar em investigações. Isto de menino detetive funciona em gibis, livrinhos de imaginação, mas a realidade é a realidade. Investigar é para homens.” (p. 40)

O gordo, também conhecido como Bolachão, dono de uma auto-estima fantástica, (e nesse caso Marinho quebra mais uma vez o estereótipo e constrói uma personagem  inteligente e muito bem resolvida que, além de tudo conquista, sem qualquer dificuldade a menina bonita do grupo, Berenice, e diga-se, a bem da verdade, conquista para a qual em princípio ele não dá a mínima) tem também uma sagaz capacidade de ironizar os adultos. A título de exemplos vejamos uma ocorrência à pagina 40, quando o gerente à frente da fábrica de seu Tomé, fala cheio de empáfia:

Como ser-lhes-á fácil concluir, o médico recomendou que [seu Tomé] trabalhasse menos, para recuperar-se e por isso entregou-me a direção da fábrica por quinze dias, o que muito me honra e envaidece-me.

_Poder-se-ía dizer que topamos um chato – cochichou o Bolachão para Edmundo que só não estourou de rir com o deboche do gordo por natural educação e pôs a mão na frente da boca para disfarçar.

Para Lajolo & Zilberman (1985: 143), desde sua primeira obra, “o estilo de Marinho se define pelo acúmulo de detalhes de violência, ou pela forma, ora natural ora exagerada, de narrar as ações, com um discurso crítico que se caracteriza pela ironia e pelo riso”. É o que vemos acontecer, por exemplo, na passagem a seguir (29-30).

Edmundo se aproveitou de que o cambista se distraiu um pouco na falação e deu-lhe um trançapé de judoca; o cambista pranchou no chão mas não largou a camisa do menino e os dois se embolaram levantando muita areia na construção. O cambista trouxe a outra mão para segurar mais Edmundo e  levou uma joelhada na boca do estômago e desta vez gritou ai.

Mas, ainda que Marinho faça das crianças os “mocinhos” da história, nem por isso deixa de mostrar, num discurso cômico, a figura do gordo em sua compulsão por comida ou sua falta de jeito pelo excesso de peso. Os trechos selecionados mostram isso.

_ Hum _ disse Bolachão se deitando no chão. _ É bom comer, depois que como não sinto raiva de ninguém (…) (p. 48)

_interessante o gordo- observou Edmundo – Com a barriga cheia ele faz confidências.

_ Mas precisa ser jantar grande _ disse Pituca _Só com sanduíche ou copo de leite ele não se declara. (p. 48)

A noite estava bonita duma lua amarela redonda clareando o Tietê. (…) Edmundo olhou ao redor e viu uma casca de laranja. Foi ali e viu outra mais na frente.

_ É o rasto do gordo, pensou. Vou seguir.

Andou vinte metros farejando o chão, por uma linha de caroços cascas e bagaços. De repente o rasto acabou.

_Acho que perdi a pista. Esticou um pouco a vista e viu um papel de sonho de valsa surgindo para a esquerda.

_Oba. O gordo virou aqui. Isso não é mais seguir gente, estou seguindo um supermercado. (50)

 

Bastante cômica também é a passagem em que o gordo pede aos amigos para limpá-lo, pois está há quatro dias sem banho. Quando os amigos dizem que estão em igual condição ele retruca que como é gordo transpira mais. Depois de “zoar” com ele, dizendo que está interessado em Berenice, atendem ao pedido. E o leitor se diverte ao ler (1986:78-79):

­_Não precisa esfregar assim. Não pedi para ser lixado.

_Agora as costas. Nossa! Como esse gordo é fofo, tem essas bolsinhas de banha penduradas na cintura, a gente passa o algodão e elas mexem todas. Parece tremelique de gelatina. Puxa, quanta sujeira está saindo. Vou limpar esta mancha preta.

_Aiiii! Isso é verruga seu besta.

_Vire de frente, como é fiteiro o Bolacha. Ô Pituca, venha ver um fenômeno, mas que coisa, o Gordo não tem umbigo!

_É mesmo, notável. A banha fechou em volta. Deixa eu por o dedo aí, fuim, olha

como afunda. Está aqui! Achei! Achei o umbigo dele, lá no fundo.

Mas, se de um lado a figura do Gordo desperta o riso, e ele tem humor para rir de si mesmo, Marinho constrói a personagem de forma a não deixar dúvidas quanto à sua auto-estima e inteligência. É ele o cérebro do grupo que pensa, organiza, questiona, enfrenta e resolve, em última instância, o enigma da fábrica de figurinhas clandestina. Isso fica provado quando consegue “quebrar” a fórmula até então infalível de despistamento do cambista, cúmplice do crime.  Sobre isso é bom lermos o que afirmam Lajolo & Zilberman (1985: 142): “A arma principal do Gordo, nas estratégias que tornam invencíveis a ele e sua turma é a inteligência, assim como uma absoluta ausência de preconceitos no que tange aos métodos empregados”.

Outro gol certeiro de Marinho é a criação do impagável detetive escocês Mister John Smith Peter Tony conhecido como o detetive invicto. Incorporando e parodiando elementos tradicionais do gênero, o autor faz a sátira na caricatura do detetive escocês que, de fato, lembra o detetive norte-americano (Lajolo & Zilberman: 1986). Focados no mesmo objetivo, o grupo do gordo e o detetive se envolvem numa falsa competição: os meninos correm  para desvendar o enigma antes que o Mister (como eles o chamam) o faça. Essa falsa competição é cheia de trechos em que o humor leva ao riso. Quando o gordo (o herói) vence a maior luta contra o anão (o falso herói) estruturando o confronto mocinho x bandido, e levando Mister Tony a apagar de seu avião a inscrição detetive invicto, encerra-se a trama, não deixando dúvidas a respeito de quem venceu a contenda. Sobre o confronto final entre a turma do gordo e o Anão,  Palo & Oliveira(1986: 23-24) assim se pronunciam:

O ponto de maior tensão da intriga é o momento da luta, a grande prova da heroicidade (Bolachão x Anão). Dessa prova, Bolachão sai vitorioso, de modo a ser confirmado como herói, o gênio do crime. Vitória que se deve não à atuação de algum poder mágico, mas à força da razão e da inteligência das crianças, que conseguem ludibriar tanto o gênio da criminalidade como o do desvendamento dos crimes: o detetive.

Fazendo uso de elementos capazes de despertar o leitor para uma série de fatos que intensificam sua curiosidade, esse tipo de obra literária dialoga com o leitor podendo emocioná-lo diverti-lo, sensibilizá-lo e, ao mesmo tempo, dar uma visão ampla a respeito dos conflitos que certamente serão observados ao longo da vida, instigando-o  a encontrar a melhor solução para os fatos (Lemos & Zulim: 2012). Eis aí uma ótima sugestão de leitura para os alunos. Em nosso próximo encontro conversaremos sobre como trabalhar na prática com essa obra de Marinho.

 

 

 

 

 

BIBLIOGAFIA UTILIZADA

 

CANDIDO, Antonio. Sílvia Pélica na Liberdade. In: ZILBERMAN & LAJOLO. Um Brasil para crianças: para conhecer a literatura infantil brasileira- histórias, autores e textos. São Paulo. Global, 4 ed., 1986

 

LAJOLO & ZILBERMAN. Literatura infantil brasileira: história e histórias. São Paulo: Ática, 9 ed. 1985

 

LEMOS & ZULIM. O suspense na Literatura Infanto-Juvenil brasileira. In: Máthesis: revista de educação. Jandaia do Sul: FAFIJAN, Vol. 13, 2012

 

MARINHO, João Carlos. O gênio do crime. São Paulo: Global, 28 ed.1986

 

PALO & OLIVEIRA. Literatura infantil: voz de criança. São Paulo, Ática (Série Princípios, 86), 1986

 

ZILBERMAN, Regina  & LAJOLO, Marisa. Um Brasil para crianças: para conhecer a literatura infantil brasileira- histórias, autores e textos. São Paulo. Global, 4 ed., 1986

 

vas linguagens.

Nosso intento hoje é buscar entender um pouco a segunda tendência, o suspense, que vem na esteirada influência cultural norte-americana, que invadiu o país a partir dos anos sessenta com o domínio dos produtos Disney e do cinema de Hollywood.  Maso que vem a ser mesmo o suspense? Inicialmente, podemos afirmar que o suspense é caracterizado pela trama policialesca, que oferece ao leitor divertimento, desafiando sua inteligência para elucidar enigmas. O inglês Conan Doyle, criador do célebre Sherlock Holmes, e a também britânica Agatha Christie, criadora do também célebre detetive Hercule Poirot, são os melhores exemplos dessa tendência que tomou de assalto o cinema hollywoodiano.

Nas décadas finais do Século XX, segundo Lemos & e Zulim (2012:37) “começou a fluir a literatura policial, com muitas obras destinadas à faixa infanto – juvenil, destacando-se Lúcia Machado de Almeida, Stella Carr, João Carlos Marinho, Marcos Rey e Pedro Bandeira, nomes que, entre outros, foram agradando e conquistando o público adolescente.”

Lajolo & Zilberman em livro já citado aqui (1985:141) informam as características básicas desse segmento:

 

O que identifica certos livros policiais e de ficção científica como infantis [ou infanto-juvenis] é a presença de crianças como detetives ou beneficiários dos poderes agenciados pela ciência. Além disso, a imaturidade do público a que se destina tais obras costuma excluir delas o ambiente de violência generalizada e corrupção em que certos livros congêneres não infantis costumam mergulhar seus leitores (…)

E continuam elas:

No livro policial infantil, o papel de vilão é sempre reservado a adultos. Assim, o desvendamento do mistério por um protagonista criança representa uma espécie de confronto entre o universo adulto e o infantil: e a vitória da criança [ou adolescente] sublinha sua argúcia frente ao mundo dos grandes, o que sem dúvida é gratificante para os leitores que se identificam com os heróis dessas histórias.

É o que vemos acontecer nos livros de Marcos Rey, na série que envolve os assassinatos em um hotel cinco estrelas, com o boy Leo e o primo cadeirante, Gino, descobrindo os assassinos; também, é o que vemos acontecer na bem sucedida série com o grupo dos Karas, em que Pedro Bandeira acabou por escrever cinco títulos com os mesmos protagonistas (A droga da obediência; Pântano de sangue; O anjo da morte; A droga do amor e Droga de americana). E o ano passado lançou A droga da amizade, depois de afirmar queo quinto título havia fechado a série.

Hoje, vamos falar de um autor dessa tendência, João Carlos Marinho, e de uma obra sua de bastante sucesso – O gênio do crime.

Logo em sua primeira obra infanto-juvenil, exatamente a que vamos analisar aqui, Marinho conquistou enorme fatia de público. Tanto é verdade que, ao primeiro título seguiram-se outros dos quais os mais conhecidos são O caneco de prata, Sangue fresco e O livro da Berenice, sempre tendo como protagonistas o Gordo, também chamado de Bolachão, e sua turma: Berenice, Edmundo e Pituca.

A obra desse autor é um dos marcos da renovação da literatura infanto-juvenil brasileira, iniciada na década de 1970, e é sempre citada como uma referência importante por autores dessa geração. Com Sangue Fresco ganhou o Prêmio Jabuti de Literatura Juvenil e o Grande Prêmio da Crítica da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes) de 1982.

Para Lajolo e Zilberman (1985:143) algumas características nos temas e na linguagem do autor são responsáveis pelo sucesso:

A forma pela qual o texto desse autor envereda por uma representação crítica do real é muito sutil e rigorosamente literária: por via da redundância vertiginosa e agressiva dos detalhes da violência ou, paradoxalmente, na naturalidade de registro de ações e instrumentos mirabolantes, ou ainda na sucessão de apelos e recursos sofisticados da técnica. (…) Isso confere ao texto de João Carlos um traço de modernidade e lhe permite inovar esteticamente em um gênero de perfil tão marcado quanto o livro policial.

Por sua vez, Fanny Abramovich (1986:13), comenta sobre seu jeito único de contar as coisas: “É no crescimento dos personagens tentando se localizar neste mundo que o escritor João Carlos Marinho também cresce incrivelmente, se adentrando pela aventura que acontece dentro das pessoas e encontrando o tom exato para contar isso.”

O LIVRO O GÊNIO DO CRIME

O Gênio do Crime é o primeiro livro infanto-juvenil de João Carlos Marinho e vem se mantendo um sucesso há 40 anos com mais de um milhão de exemplares vendidos em 62 edições. Citado como uma das referências fundamentais da literatura infanto-juvenil brasileira das últimas décadas, tem nesse o mais famoso dos livros com o Gordo e sua turma como protagonistas. Em 2006, foi publicado em espanhol com o título El Génio del Crímen e foi adaptado para o cinema, em 1973, pelo diretor Tito Teijido, com o título O Detetive Bolacha contra o Gênio do Crime.

Vamos a um rápido comentário sobre o enredo do livro: trabalhando com o universo infantil, os álbuns de figurinhas de futebol (hoje algo desconhecido da absoluta maioria das crianças e adolescentes) que enlouqueciam a garotada na busca por completá-lo, Marinho narra a história de seo Tomé, proprietário de uma fábrica de figurinhas de futebol. Ocorre que seo Tomé é um empresário sério e oferece, a quem completa o álbum, prêmios realmente bons. O maior deles, um jogo completo de camisas do time que o felizardo quisesse. Acontece que, para oferecer esses prêmios, existiam as figurinhas fáceis, impressas em grande quantidade, e as difíceis, fabricadas em número menor, o que dificultava o fechamento do álbum. Já no início temos uma idéia da situação:

Era um mês de outubro em São Paulo, tempo de flores e dias nem muito quentes nem muito frios, e a criançada só falava no concurso das figurinhas de futebol.

Deu mania, mania forte, dessas que ficam comichando o dia inteiro na cabeça da gente e não deixa pensar em mais nada. Quem enchia o álbum ganhava prêmios bons e jogava-se abafa pela cidade: São Paulo estava de cócoras batendo e virando ( pag. 09).

Logo no parágrafo seguinte lê-se:

Edmundo estava aflito: faz dois meses que só faltava o Rivelino para encher o álbum e poder ir lá na fábrica receber o prêmio. Comprara toneladas de envelopinhos e o Rivelino não saía, virou a cidade nos abafas até de Vila Matilde e do Tucuruvi e num dia foi num treino do Corinthians falar com o próprio Rivelino, inutilmente, porque o jogador também colecionava e não conseguia encontrar a figura dele mesmo (pag. 09).

Acontece que um bom enredo policial precisa desafiar o leitor a sentir-se também partícipe do desvendamento do enigma. E ele surge quando uma fábrica clandestina imprime as figurinhas mais desejadas, as difíceis, e as vende livremente mediante alto preço. Com isso o número de álbuns cheios cresce e seu Tomé não tem mais como dar a todos os prêmios  prometidos, correndo o risco de ver sua empresa afundar. Há uma revolta, as crianças querem quebrar a fábrica, por não cumprir o prometido. É aí que Edmundo, Pituca, Bolachão, e mais adiante Berenice, entram em cena, a pedido de seo Tomé (de quem ficaram amigos), para descobrir a fábrica clandestina e resolver o problema, “botando” o larápio atrás das grades. As crianças, porém, não estão em busca de qualquer “bandido pé de chinelo”. Não. Não se trata de um simples bandido, mas de uma quadrilha chefiada por um gênio do crime, e os meninos terão de botar a cabeça para funcionar se quiserem resolver os problemas de seo Tomé e de sua empresa. Por sua vez, argumentando que criança não deve se meter em assuntos de adultos, que vão correr riscos, o gerente da empresa convence seo Tomé a contratar o maior detetive do mundo: o escocês Mister John Smith Peter Tony – o detetive invicto.

Ocorre que Mr. John é simpático e faz amizade com os meninos. Mas na busca por resolver a intriga vão se cruzar inúmeras vezes. E é nesse cruzamento que Marinho consegue suavizar situações plenas de violência com o toque de humor que lhe é peculiar, como no trecho abaixo, em que o gerente quer impedir que os meninos falem com seo Tomé e sua linguagem erudita recebe a ironia do Gordo:

Como ser-lhes-á fácil concluir, o médico recomendou que trabalhasse menos, para recuperar-se e por isso entregou-me a direção da fábrica por quinze dias, o que muito me honra e envaidece-me.

Poder-se-ía dizer que topamos um chato – cochichou Bolachão para Edmundo que só não estourou de rir com o deboche do Gordo por natural educação e pôs a mão na frente da boca para disfarçar (p. 40) .

 

Essa linguagem tão própria, que envolve o jovem leitor, faz de Marinho e de sua obra literatura da melhor qualidade, enriquecendo a produção infanto- juvenil brasileira. Hoje ficamos por aqui. Em nosso próximo encontro, faremos uma análise mais aprofundada desse livro. Até lá.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ABRAMOVICH, Fanny. Prefácio. In: MARINHO, João Carlos. Pai mental e outras histórias 2 ed.. São Paulo: Global Editora, 1986

LAJOLO & ZILBERMAN. Literatura infantil brasileira: história e histórias 2 ed.. São Paulo: Ática, 1985

LEMOS & ZULIM. O suspense na literatura infanto-juvenil brasileira. In: Máthesis: revista de educação. Jandaia do Sul: FAFIJAN, 2012

MARINHO, João Carlos. O gênio do crime, 28 ed.. São Paulo: Global, 1986

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