Espelho, espelho nosso…

Postado em 17 de junho de 2016 por Seja o primeiro a comentar

Alice no espelho - Laura Bergalo

(por Carla Kühlewein)

E lá está a famigerada madrasta da Branca de Neve preocupadíssima interrogando o espelho mágico com a tão conhecida frase: “Espelho, espelho meu! Existe alguém no reino mais bela que eu?”. O espelho, imparcial e imponente, responde: “Branca de Neve é a mais bela!”. Não é a toa que a inveja da madrasta depois disso cresce, cresce… tanto até transformá-la em bruxa e conseguir dar um fim na pobre menina pálida da maçã envenenada. Afinal, o espelho revela exatamente o que não se deseja ouvir: a realidade.

A cena é clássica e infantil, mas na verdade a atitude da madrasta não poderia ser mais humana: observar-se no espelho e interrogar-se sobre a aparência. Afinal, quem nunca se olhou no espelho para “conferir a estampa”?

                Mágico ou não, volta e meia o famoso espelho é consultado, mas nem sempre o que ele revela é o que realmente se deseja ver…

- A BUNDA CONTINUA A MESMA, ENORME! – SUSPIRA ALICE, DE COSTAS PARA O ESPELHO, ESPICHANDO O PESCOÇO PARA VER MELHOR O TRASEIRO ENFIADO NUM SHORTINHO VERMELHO.  – ESTOU UMA MONSTRA HORROROSA, COMO SEMPRE.

O ESPELHO (GRANDE E EMOLDURADO, PREGADO NA PAREDE EM FRENTE À CAMA) NÃO PARECE CONCORDAR, MAS GERALMENTE (COMO SABEMOS) ESPELHOS NÃO TÊM OPINIÃO PRÓPRIA. A IMAGEM QUE ELE REFLETE É DE UMA GAROTA MAGRICELA, QUASE SEM BUNDA, OS PEITOS PEQUENININHOS E OS CABELOS COMPRIDOS E LISOS, QUE RECLAMA:

- LINDA MESMO É A MIRNA LEE… MAS NUNCA VOU PARECER COM ELA.

                O trecho acima está no livro ALICE NO ESPELHO, da escritora Laura Bergallo. Trata-se da história da adolescente Alice, que não por acaso tem o nome da personagem do País das maravilhas (o pai da menina adorava essa história, então resolveu batizar a filha com o mesmo nome). Como toda adolescente que se preze, Alice enfrenta os conflitos internos próprios da fase, o maior deles: aceitar sua condição física. Às vezes Alice exagera na comida e… decide ter uma atitude típica de meninas dessa idade:

RESPIRA FUNDO PRA TOMAR CORAGEM E, COM UM GESTO REPENTINO, ENFIA O CABO DA ESCOVA GARGANTA ABAIXO. O ESTÔMAGO SE EMBRULHA NUM SEGUNDO E UMA ONDA ÁCIDA CHEGA ATÉ A BOCA, SAINDO EM JORRO ATÉ ATINGIR O CHÃO. O SOM DO VÔMITO É ABAFADO PELO SOM DA ÁGUA.

MEIO ASSUSTADA, ALICE SE APOIA NA PAREDE E VÊ O RALO ENGOLINDO TUDO O QUE ACABA DE DESENGOLIR. SENTE-SE LIMPA E ALIVIADA. UM GRANDE PRAZER SUBSTITUI O PESO QUE TINHA NO ESTÔMAGO.

REPETE A OPERAÇÃO MAIS DUAS VEZES ATÉ SENTIR QUE ESTÁ COMPLETAMENTE VAZIA.

                A descrição dessa “típica atitude de adolescente” é tão fiel à cena real que provoca até um certo asco e logo faz pensar na consequência grave que ela pode causar: a anorexia. Por isso, o livro ALICE NO ESPELHO é acompanhado, ao final, por informações adicionais sobre essa doença e um relato espontâneo da Alice da vida real.

                Livros como o de Bergallo levam a refletir sobre as consequências máximas a que a ditadura do espelho conduz a humanidade. Os padrões de beleza se modificam (magra, magérrima, “sarada”…), mas a imposição de um modelo ideal a ser copiado permanece inabalável.

                Em uma sociedade onde a máxima tende para o individualismo, parece natural que cada vez mais o número de Alices, anoréxicas ou não, se multiplique, compondo uma vasta multidão de seres um tanto quanto parecidos.

Ainda que a maior parte dos casos de busca pela beleza não cheguem à condição extrema da personagem de Laura, o espelho revela uma dúvida que parece ter nascido com a civilização: como lidar com a realidade quando o sonho termina? A menina Alice, de Bergallo, compartilha dessa angústia:

AÍ SE LEMBRA DO PAI CONTANDO PARA ELA QUAL ERA A EXPRESSÃO PREFERIDA DE ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS: “VAMOS FAZER DE CONTA”. E ENTÃO FAZIAM DE CONTA DE TODO JEITO. FAZIAM DE CONTA QUE ALICE ERA PEQUENA COMO UM INSETO OU TÃO GRANDE QUE NÃO CABIA NA CASA. (…) MAS ISSO JÁ FAZ MUITO TEMPO E AGORA ALICE NÃO PODE FAZER DE CONTA QUE LIMPOU O BANHEIRO. NÃO PODE FAZER DE CONTA QUE NÃO DEVOROU O POTE INTEIRO DE SORVETE OU QUE NÃO DEVOROU TUDO DEPOIS. ESSAS COISAS ELA TEM QUE ENCARAR. MAS SENTE FRIO, MEDO E NOJO. PRECISA SAIR CORRENDO, SUMIR DALI, FINGIR QUE NUNCA EXISTIU.

No fim das contas, fica difícil saber se o que se projeta no espelho é o ponto de vista próprio (a verdade nua e crua) ou o do outro (o padrão social). Talvez seja uma mistura dos dois olhares, quem sabe? Seja como for… ainda que o reflexo não seja lá uma MARAVILHA, o importante é permanecer RISONHO, e se preciso comemorar o DESANIVERSÁRIO, antes que a ditadura do espelho decida CORTAR-LHE A CABEÇA e torne você uma eterna ALICE, perdida, indagando sem rumo: ESPELHO, ESPELHO NOSSO…

Categoria : Releiturinhas
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